24 de março de 2015

RESENHA: Tudo o que ela sempre quis - Barbara Freethy

Desafio Loucas por Livros e Esmaltes: Amigos + Preto

Tudo o que ela sempre quis - Barbara Freethy

Demorei séculos para terminar, mas por conta dos afazeres da vida. Se tivesse pegado esse para ler em janeiro, com certeza teria terminado em 2 ou 3 dias. Adorei o fato de os personagens estarem na mesma faixa etária que eu. Não tenho encontrado livros contemporâneos com personagens bons chegando aos 30.

Natalie é a personagem principal pois todo o suspense gira em torno de algo que ela pode não ter feito. Emily é a amiga que morreu mas que continua presente na vida dos personagens como se estivesse aqui ainda. Me dei conta de que não desgostei de nenhum dos personagens. São todos muito bons, tanto o quarteto de amigas quanto os rapazes que fizeram e fazem parte da vida delas. 

Achei muito interessante a maneira como a autora mistura romance, suspense, policial, ou seja, um pouco de tudo sem perder o ritmo ou fugir do plot principal. A história é narrada pelos pontos de vista de todos os envolvidos, de modo que a verdade vai se construindo aos poucos para o leitor. A mesma conversa ou situação acaba aparecendo em momentos diferentes conforme cada um relembra o passado. Além disso tudo há a evolução dos personagens, pois Freethy conseguiu, muito bem, diferenciar os personagens nos dias atuais e nos tempos de faculdade.

A história gira em torno de um crime envolvendo 4 amigas. A maneira como a autora escolheu abordar o assunto, destrinchando aos poucos cada um dos envolvidos nos faz duvidar de todos eles como em qualquer romance policial que se preze. O suspense fica a cargo da dúvida acerca do que realmente aconteceu naquela noite fatídica. Estavam todos separados e eles levam tempo para conseguir juntar os fragmentos e terem um vislumbre da verdade. O romance aparece nas cenas entre os dois casais que acabam se formando durante essa busca, de uma forma mais leve do que nos livros exclusivamente românticos mas ainda assim capaz de arrancar suspiros das incorrigíveis.

Enfim, me surpreendeu. É daqueles livros que não se pode contar muito do enredo para não estragar a experiência para possíveis leitores, qualquer informação além das dadas teria impacto direto na maneira como se recebe a história. Por se tratar de um enredo cheio de detalhes, qualquer coisa se torna um big spoiler.


9 de março de 2015

RESENHA: O Diário de Helga - Helga Weiss


RC 2015 - Livro de Autobiografia / Memórias

O Diário de Helga - Helga Weiss

Denso. Apesar de ser um relato das experiências de uma criança/adolescente durante a guerra, a autora revisou o diário escrito em Terezin depois da guerra e toda a parte depois do transporte para Auschwitz foi desenvolvida depois.

O que vi nesse diário foram detalhes que a visão infantil dos outros deixavam de fora e também um apego extremo dela em relação à mãe. Ela era uma garota extremamente sensata em vários momentos, mas quando a mãe entrava em cena se punha em risco. 

Mais uma vez somos transportados para o L410 mas dessa vez no quarto 24. Ou seja, elas estavam tão perto das meninas do quarto 28 que li na expectativa de talvez vislumbrar uma delas. Mas mesmo estando perto, achei que as diferenças eram gritantes. Por exemplo, nesse quarto as meninas tinham a cama só para elas, enquanto em outros eram 2 ou 3 meninas por cama.

Um diferencial é a quantidade de imagens, desenhos feitos por ela que permeiam todo o conteúdo. Ela em sua estada em Terezin fez desenhos mostrando situações costumeiras e momentos durante a preparação da família para o transporte. Meu preferido foi o que ela fez para a amiga Francka, de como seria quando elas se encontrassem no futuro, depois da guerra.

Francka e Helga nasceram na mesma ala da maternidade.

Havia uma ignorância acerca do que acontecia em outros lugares, Helga só tomou conhecimento das câmaras de gás quando chegou em Auschwitz. O que faz com que as pessoas que conseguiram permanecer lá até o fim da guerra só souberam desses aspecto depois. Se nem quem estava no epicentro dessa confusão sabia, imagina as pessoas de fora. 

Fila para comer.

Outro ponto fascinante nesse relato é a grande diferença de tratamento que os judeus receberam em campos diferentes. Helga chega a essa conclusão com o tempo. Campos de trabalho, concentração e guetos. Quem se manteve nos guetos teve chances superiores de sobrevivência. Nos de trabalho a violência psicológica era um dos maiores problemas. O trabalho era pesado, mas muitos conseguiam se manter nas fábricas e tinham um teto e havia uma pequena conspiração para retardar o término do serviço.

Visita da Cruz Vermelha. O espetáculo foi montado.

Helga não se atém aos problemas da guerra em si, mas nos mostra como foi complicado para os judeus se inserir na sociedade depois. Foram meses, anos pulando de abrigos em abrigos e dependendo da boa vontade de estranhos para comer e ter onde descansar e se restabelecer em todos os sentidos. Levou anos para que ela e mãe conseguissem o apartamento deles de volta. Infelizmente não há registros sobre o que aconteceu com seu pai ao sair de Terezin, apenas especulações.

Eu perdi o meu livro físico. Se realmente não o achar vou comprar outro. Vale a pena.

7 de março de 2015

RESENHA: Vida Assistida - Tess Gerritsen


DESAFIO LITERÁRIO DO SKOOB 2015
Escritoras com 'A' Maiúsculo - 03/12

Vida Assistida - Tess Gerritsen

Mais uma vez não precisei pensar muito para escolher a leitura do mês. Eu amo tudo o que essa mulher escreve. Ela não decepciona. Durante a leitura é palpável o trabalho e esforço a que ela se propõe quando escreve um livro. É um comprometimento com a veracidade e possibilidade real de as coisas acontecerem como descritas. É só olhar a bibliografia que vem na última página do livro.

A personagem principal da vez é a Drª. Toby Harper, uma médica de emergência de 30 anos de idade que se divide entre os seus plantões noturnos e cuidar da mãe idosa e portadora de Alzheimer. É claro que há uma série de antagonistas dispostos a fazer da vida dessa mulher algo mais miserável.

Quando um paciente idoso e sem diagnóstico desaparece em seu plantão sua vida que já não é fácil se torna um inferno. Acusada de negligência, Toby começa uma guerra contra seus superiores e com um dos médicos do Asilo em que o paciente desaparecido era tratado. Um asilo de luxo, onde ricaços aposentados pagam milhares para ter uma vida de reis.

Há também um plot paralelo, a adolescente Molly Pickler tem 16 anos e vive como prostituta. Depois de ser enviada para um dos clientes mais estranhos que já teve em sua curta carreira ela se vê grávida, mesmo sempre tomando todos os cuidados necessários para evitar uma situação dessa. 

Nesse momento a tensão no livro é grande, há cenas dignas de filmes de perseguição policial, outras de dramas familiares, e claro o bom e velho drama hospitalar. Cada personagem que entra na história tem alguma característica que faz dele um bom suspeito de algo. Você pode até não saber do quê, mas alguma coisa errada o sujeito fez.

Nessa confusão toda, Tess até achou para um pouco de romance. O Dr. Dvorak é o médico-legista do condado e acaba se envolvendo nas teorias conspiratórias que Toby vai desenhando na cabeça. Ela está disposta a tudo para provar sua inocência em relação a todas as acusações que sofre durante  toda a história (e não são poucas) e arrasta o legista junto. 

Nesse meio-tempo a única pessoa que acreditava nela e compartilhava de suas conclusões é assassinada na porta do hospital que Toby trabalha, deixando-a mais ainda com cara de louca para todos ao seu redor. Por conta de todos esses acontecimentos ela não vê o que está acontecendo bem na sua casa.

A situação dela se torna mais ainda crítica quando sua mãe é hospitalizada com suspeita de envenenamento e maus-tratos. Devido aos problemas quem vem enfrentando no trabalho, a polícia recai sobre ela como suspeita mais provável e ela embarca numa jornada sem escalas para tentar provar sua inocência e provar quem são os verdadeiros culpados em todas as acusações. Mesmo que tenha que fazer sozinha.

O plot da menina, Molly, me surpreendeu, eu imaginava um resultado ligeiramente diferente para a história diferente, mais uma vez Tess Gerrisen optou por não ir pelo caminho mais óbvio. Alguns resultados foram similares aos que eu imaginei mas não tiveram uma explicação tão simplória como as que eu arquitetei. A autora vai mais fundo. Nada é tão simples. Achei interessante também que o título em inglês 'life support' realmente se adequa a mais de uma das situações apresentadas. A expressão não fica limitada somente ao seu significado real, mas a toda uma série de conotações. 

É uma obrigação de todo e qualquer fã de livros policiais/ suspense / médico ler esse livro. É uma obrigação ler e ter em casa toda a bibliografia dessa maravilhosa escritora. Que aliás conta com meu apoio em seu processo contra a Warner acerca da acusação de plágio do seu livro Gravidade. As semelhanças entre o livro dela e o filme são imensas demais para serem ignoradas. We are there for you, Tess.

6 de março de 2015

RESENHA: É Hora de Falar - Helen Lewis

É Hora de Falar - Helen Lewis

A dança salvou sua vida. Mais de uma vez. Em 'É Hora de Falar', Helen nos conta como foi sua vida antes da chegada de Hitler à Checoslováquia, e os anos passados em inúmeros Campos de Concentração.

Fiquei impressionada com a narrativa. Ela e o marido foram ingênuos no início da guerra, mas também pudera, mal tinham entrado nos 20. Seu primeiro destino foi Terezin, e lá ela teve seu primeiro golpe de sorte. Fosse acaso ou ousadia, essa mulher teve sorte. Soube aproveitar oportunidades sem titubear e isso a manteve viva.

Durante toda a guerra ela teve: apendicite, seus pés quase ficaram necrosados e teve febre tifoide. Em momentos de fraqueza extrema encontrou soldados da SS que poderiam tê-la executado mas não o fizeram, conheceu alguns oficiais gentis, fazendeiros que poderiam tê-la denunciado mas não o fizeram. Tudo que poderia ter um fim trágico ela vislumbrou, mas por obra divina, destino ou sorte, ela sobreviveu para contar.

Diva.
Mais de uma vez durante o período sua vocação e profissão de dançarina a salvaram. Aparentemente os nazistas gostavam de arte. E quando alguém era bom no que fazia acabava sendo poupado da raiva. Ela dançou Copélia em um campo de concentração e foi aplaudida. Somente um grande artista conseguiria essa proeza. Vencer a fome, a desnutrição, o frio, a fraqueza e dançar com leveza, suavidade, sorrisos.

Ao longo da linha férrea ela foi perdendo a mãe, o marido, os sogros, os amigos. Mas não desistiu, não se rendeu. Poupou energia e se esforçou quando necessário, era dona de um senso extremo. 

Ao fim da guerra mais uma vez sentiu que o perigo ainda não havia terminado e contra recomendações médicas se aventurou por uma longa viagem que duraria mais de 50 dias de trem do campo de Stutthof na Polônia até Praga - Checoslováquia. São mais de 780 Km. Doente. Chegou ao seu destino salva. Essa mulher incrível falaceu em 31 de dezembro de 2009 aos 93 anos. Uma vida longa e plena, mais que merecida. Obrigada por seu legado Ljena.


3 de março de 2015

RESENHA: A Bibliotecária de Auschwitz - Antonio G. Iturbe

A Bibliotecária de Auschwitz - Antonio G. Iturbe

Fascinante. Uma história real romanceada e cheia de detalhes envolventes que farão qualquer aficionado pelo tema devorar esse livro e querer tê-lo na estante.

Dita, nossa protagonista, é uma recém-chegada a adolescência que assim que chega à Auschwitz aceita o cargo extremamente perigoso de guardiã de 8 livros que foram contrabandeados para dentro do campo e servem para as aulas que as crianças do Barracão 31 tem clandestinamente. 

A menina apesar de todo o perigo que corre se empenha e faz o que tem que fazer com maestria. Ela teme por sua vida, mas acredita que o que faz é necessário.

Durante os meses que ela fica em Auschwitz acompanhamos as vidas de outras pessoas ao seu redor como Fredy Hirsch, suas amigas Margit e René, um registrador de campo e um oficial da SS. Fredy foi uma figura importante dentro de Terezin e do Campo Familiar, graças a ele todas as crianças que passaram pelo Barracão 31 tiveram uma chance muito maior de sobreviver à Guerra.

Gostei muito de como o autor nos dá informações acerca de como as coisas se desenvolveram conforme os personagens iam deixando a trama. O que se percebe é que a vida dessas pessoas ligadas ao Campo Familiar de Birkenau tiveram um mínimo de normalidade por ao menos 6 meses, graças aos esforços desses adultos e adolescentes que não se acovardaram e tentaram fazer com que essas crianças tivessem um pedaço de liberdade. Suas mentes podiam viajar não importando onde seus corpos estavam.

Ao fim de seu período de quarentena ela e a mãe partem de Auschwitz e quase no fim da guerra chegam a Bergen-Belsen. O relato dos dias que elas passaram ali são extremamente angustiantes e fazem Auschwitz parecer uma favelinha e Terezin uma prisão 5 estrelas. Derramei lágrimas silenciosas o tempo todo e em algumas passagens chorei de soluçar e embaçar tudo. Principalmente ao ler o momento em que nossa Dita reencontra Margit e em poucos dias testemunha o falecimento de Margot e Anne Frank. Tudo algumas semanas antes de os ingleses chegarem ao Campo.

Ao final o autor nos agracia com o destino de vários personagens reais, judeus e nazistas. Confesso que vibrei com cada confirmação de execução de um SS. Chorei de felicidade ao ver que nossa bibliotecária não só sobreviveu a todas as provações como encontrou o amor. Ela se casou com um companheiro de Bloco 31 e ficaram juntos 55 anos até a morte dele. Dita... sou sua fã. Obrigada por resistir.

Uma verdadeira heroína.